{"id":1974,"date":"2015-04-22T13:24:11","date_gmt":"2015-04-22T13:24:11","guid":{"rendered":"http:\/\/mjvieira.com\/site\/?p=1974"},"modified":"2015-04-22T13:41:21","modified_gmt":"2015-04-22T13:41:21","slug":"apresentacao-dos-irmaos-abraao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mjvieira.com\/site\/apresentacao-dos-irmaos-abraao\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os Abra\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 sem uma leve ponta de prazer que introduzo ao leitor desta prestigiosa revista uma cr\u00f3nica das artes, de critica, de civiliza\u00e7\u00e3o, e ainda por cima\u00a0 precisamente nessa disciplina fulcral e onde ultimamente impera a confus\u00e3o, o livre arb\u00edtrio e a franca corrup\u00e7\u00e3o. Sim,\u00a0 j\u00e1 ter\u00e3o decerto compreendido qual: a Critica de Arte. Depois de muito cogitar sobre este tenebroso assunto ( eu pr\u00f3prio sou um pouco artista) \u00a0pareceu-me pertinente convocar os melhores cr\u00edticos de arte \u00e1 escala planet\u00e1ria, que t\u00eam contudo passado despercebidos nas geladarias da Baixa:<\/p>\n<p>Isaac e \u00d3scar Abra\u00e3o. Os irm\u00e3os Abra\u00e3o, tendo um entendimento e um super-avit de informa\u00e7\u00e3o geneticamente id\u00eantico, extremamente atentos \u00e1s mais recentes flutua\u00e7\u00f5es da filosofia e da arte, partilham no entanto um vocabul\u00e1rio estranhamente antiquado, dos finais do s\u00e9c. XX, se n\u00e3o anterior. Divergem, contudo, completamente, tanto na abordagem das grandes quest\u00f5es das artes contempor\u00e2neas, como de tudo o resto. E isto como o lobo do cordeiro, o preto do branco, o pintor de cavalete do v\u00eddeo-artist, o coro de Santo Amaro de Oeiras dos Metallica.<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que estes dois criticos se escondem sob o manto di\u00e1fano da fantasia heteron\u00edmica, n\u00e3o \u00e9 menos verdade que muitas manifesta\u00e7\u00f5es no campo das artes s\u00e3o um monte nem por isso di\u00e1fano de outra coisa que n\u00e3o fantasia e que \u00e9 coberto por um manto t\u00e3o di\u00e1fano que s\u00f3 aos verdadeiros conhecedores\u00a0 \u00e9 vis\u00edvel. Em suma, o rei vai nu. O rei vai nu?<\/p>\n<p>Para \u00d3scar Abra\u00e3o o rei nunca vai assim t\u00e3o nu e em contraponto para Isaac Abra\u00e3o a nudez \u00e9 patente atrav\u00e9s das sete saias de chumbo da mais vestida das rainhas.<\/p>\n<p>Foi por isso que lhes propus que abordassem\u00a0 os\u00a0 temas sobre a forma de dialogo, at\u00e9 porque nunca se sabe qual deles tem raz\u00e3o e assim, pelo menos a verdade aparecer\u00e1, talvez, numa destas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de exemplo acompanhei-os numa recente exposi\u00e7\u00e3o num amplo espa\u00e7o camar\u00e1rio. Essa exposi\u00e7\u00e3o era fruto de coopera\u00e7\u00f5es esmeradas e seri\u00edssimas sobre as quais n\u00e3o me vou alongar, onde os artistas X&#8230; e Y&#8230;tinham composto uma instala\u00e7\u00e3o, imposs\u00edvel sem a produ\u00e7\u00e3o executiva do comiss\u00e1rio N&#8230; num percurso \u00e1 volta de diversos trabalhos em v\u00e1rias \u201cdisciplinas\u201d que iam desde o suporte f\u00edlmico at\u00e9 a objectos tridimensionais. Observava as pe\u00e7as calmamente quando atr\u00e1s de mim come\u00e7o a ouvir um burburinho. N\u00e3o pude deixar de reconhecer a voz de\u00a0 \u00d3scar, primeiro, e a de Isaac, depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Isto \u00e9 Arte, n\u00e3o por ser arte, mas exactamente porque n\u00e3o \u00e9 arte!<\/p>\n<ul>\n<li>Isto n\u00e3o \u00e9 arte. Isto \u00e9 um exerc\u00edcio de escola. Est\u00e3o a jogar \u00e1 arte.<\/li>\n<li>Repara, Isaac, podes traduzir o estado de esp\u00edrito desta instala\u00e7\u00e3o quase eclesi\u00e1stica nas cores de um Murillo ou de um Zurbaran. Repara nos castanhos dos filmes de 16mm, no negro da sala, no branco \u00f3sseo da natureza morta&#8230; E as pe\u00e7as entram num dialogo auto referencial onde&#8230;onde&#8230;<\/li>\n<li>Onde n\u00e3o h\u00e1 nada. \u00c9 um jogo. A morte, os rituais, a vida do artista que experimenta uma realidade para depois fazer dela uma obra de arte \u00e9 um desporto qualquer mas n\u00e3o lhe chamem arte. \u00c9 mais como aquelas senhoras que t\u00eam experiencias com almas do outro mundo atrav\u00e9s de pratos que se deslocam pela gra\u00e7a de fantasmas&#8230;<\/li>\n<li>N\u00e3o concordo, e alem do mais tens que concordar que \u00e9 um trabalho perfeito do ponto de vista formal, mesmo irrepreens\u00edvel. S\u00f3brio, s\u00e9rio e negro. Do mais contempor\u00e2neo que h\u00e1 no sentido de uma interdisciplinaridade n\u00e3o s\u00f3 em termos da utiliza\u00e7\u00e3o de diversas disciplinas pl\u00e1sticas mas tamb\u00e9m como do seu enquadramento te\u00f3rico e vivencial. Lembra-te que eles filmam a realidade, por onde andaram, o que experimentaram&#8230; \u00e9 uma reflex\u00e3o po\u00e9tica, um esqueleto lavado pelo mar&#8230;<\/li>\n<li>Se tu n\u00e3o te calas com esses disparates sinto-me na obriga\u00e7\u00e3o de te atirar com um balde de \u00e1gua gelada no teu po\u00e9tico cr\u00e2neo. Basicamente estes gajos foram passear num s\u00edtio a que chamaremos \u201cex\u00f3tico\u201d, filmaram alguns rituais \u201cex\u00f3ticos\u201d, filmaram-se tamb\u00e9m a si pr\u00f3prios como Hamlet falando com o bobo, utilizaram algumas met\u00e1foras po\u00e9ticas e encenaram t\u00e9cnicas j\u00e1 vistas para compor esta esp\u00e9cie de igreja soturna que aqui v\u00eas. \u00c9 engra\u00e7ado. A morte, a igreja, o negro, todos os s\u00edmbolos da seriedade e depois o \u201cpathos\u201d do filme de 16 mudo, cheio de patine, em apontamento de antiqu\u00e1rio. Mais uma coisa morta-viva, mas com um charme t\u00e3o na moda&#8230;<\/li>\n<li>Mas \u00e9 exactamente isso o que se pretende! Os tristes tr\u00f3picos ou a triste vida em geral, os vest\u00edgios&#8230; que seremos n\u00f3 no futuro debaixo das eternas for\u00e7as naturais sen\u00e3o vest\u00edgios?<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 sem uma leve ponta de prazer que introduzo ao leitor desta prestigiosa revista uma cr\u00f3nica das artes, de critica, de civiliza\u00e7\u00e3o, e ainda por cima\u00a0 precisamente nessa disciplina fulcral e onde ultimamente impera a confus\u00e3o, o livre arb\u00edtrio e a franca corrup\u00e7\u00e3o. Sim,\u00a0 j\u00e1 ter\u00e3o decerto compreendido qual: a Critica de Arte. 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