{"id":1976,"date":"2015-04-22T13:25:27","date_gmt":"2015-04-22T13:25:27","guid":{"rendered":"http:\/\/mjvieira.com\/site\/?p=1976"},"modified":"2015-04-22T13:41:21","modified_gmt":"2015-04-22T13:41:21","slug":"as-fabulosas-aventuras-de-luis-mendonca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mjvieira.com\/site\/as-fabulosas-aventuras-de-luis-mendonca\/","title":{"rendered":"As fabulosas aventuras de Luis Mendon\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>O moscardo Portugu\u00eas<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o pr\u00e9-gen\u00e9rica<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Triceratops girava a toda a velocidade no seu foguete \u201cVigoroso\u201d . Apesar de ser um moscardo oct\u00f3pode de mais de cem Kilos continuava a t\u00ear orgulho em ser portugu\u00eas. Um orgulho de car\u00e1cter mais mitol\u00f3gico do que qualquer outra coisa mas ainda assim uma marca de identidade da qual n\u00e3o se podiam reclamar zili\u00f5es de insectropoides iguaizinhos ums aos outros, num mundo cada vez mais dominado por uma s\u00f3 ideologia, cada vez mais uniforme. Os seus lemes da cauda tuinham sido desrtuidos pelos canh\u00f5es de prot\u00f5es inimigos na guerra televisionada de Portugal contra o resto do Mundo e ele tinha urgentemente que parar para fazer repara\u00e7\u00f5es e comer. O desespero e o mau estado da nave tinham-no levado a uma galaxia moribunda, cujas estr\u00ealas agonizavam e tinha o pressentimento de que n\u00e3o faltaria muito tempo para uma vaga de anti-mat\u00e9ria implodir aquele mundo. De repente, os sensores detectaram uma estrutura flutuante numa \u00e1rea pr\u00f3xima. Iniciou prontamente os preparativos para uma aproxima\u00e7\u00e3o ao objecto. Obteve em segundos contacto visual. Tratava-se, aparentemente, de uma arcaica esta\u00e7\u00e3o espacial, de antes da Grande Fus\u00e3o, no tempo em que tanto Portugal como o Resto do Mundo eram ocupados por seres humanos e extra-terrestes de origem ori\u00f3nica. Nessa altura O resto do Mundo estava ainda sub dividido em pa\u00edses e planetas administrativamente separados, a quem os portugueses, do alto da sua sapiencia milenar, chamavam \u201cEstrangeiro\u201d.\u00a0 Separou a c\u00e1psula do corpo principal da nave e introduziu-se naquilo que parecia ser uma garagem de repara\u00e7\u00e3o de naves espaciais. Maravilhou-se com a concep\u00e7\u00e3o rudimentar dos aparelhos, cobertos por p\u00f3 espacial velho de de dezenas de milhares de anos. Conseguiu chegar \u00e1s portas de descompress\u00e3o e ambienta\u00e7\u00e3o e, finalmente tirou o capacete.<\/p>\n<p>Era um moscardo relativamente novo. Tinha acabado de fazer 444anos e ainda tinha bastante pilosidade \u00e1 volta das antenas. Apesar de ser mais de 90% insectom\u00f3rfico, adorava femeas sapiens e o mundo dos mam\u00edferos em geral fascinava-o. Tinha na sua colmeia um poster da Florbela Queir\u00f3s e quatro da Ana Malhoa mas n\u00e3o sabia exactamente o que aquilo queria dizer nem o que fazer com as poucas f\u00e9meas puramente humanas que ainda se iam encontrando, t\u00e3o fr\u00e1geis que pura e simplesmente rebentavam\u00a0 nas pontas das suas patas \u00e1 minima caricia.<\/p>\n<p>Verificando a nave, determinou tratar-se de uma esp\u00e9cie de museu gigantesco, de um labirinto composto por uma miriade de salas formando uma espiral. Contemplou as obras de arte de Picasso, Orgasmo Carlos, os paineis de Nuno Gon\u00e7alves. Apoderou-se de algumas latas de \u201cmerde d\u2019artiste\u201d e refastelou-se numa prateleira a comer. A merda estava em \u00f3ptimo estado, apesar de enlatada na pr\u00e9-hist\u00f3ria. Puxou do comando de um hologramador e premiu ao acaso o bot\u00e3o. Imagems confusas iam e vinham, repetiam-se at\u00e9 se estabilizarem. O audio do documento estava em portugu\u00eas arcaico e parecia ser uma reportagem sobre um personagem do ano 9657, um Portugu\u00eas humano, inspector de uma Policia da P\u00e1tria de tempos idos. O disco mole estava bastante danificado, mas mesmo assim ainda havia uma enorme por\u00e7\u00e3o intacta, mais ou menos a partir de um ter\u00e7o do documento. Afinou as suas centenas de olhos para examinar o holograma e um prazer indefenido, torpe e embriagador tomou posse das suas gl\u00e2ndulas. \u201cMas isto \u00e9 um filme de aventuras ou um document\u00e1rio?\u201d. Lia agora em letras garrafais ao som de uma orquestra tocando m\u00fasica de ac\u00e7\u00e3o peripat\u00e9tica:<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luis Mendon\u00e7a e as mulheres canibais<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio I \u2014 A rotina colonial<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>M\u00e1tinho nunca percebeu porque \u00e9 que a sua vida afectiva corria t\u00e3o .mal. Desde piccolo \u00e1 procura de um ser que lhe desse amor at\u00e9 perceber qu e o seu pr\u00f3prio subterr\u00e2neo mental nada tinha j\u00e1 a ver com mel e ursinhos de peluche. O seu primeiro amor foi a princ\u00edpio completamente do mais bonito que h\u00e1. Quando se deu o primeiro enlace e compreendeu que a rapariga at\u00e9 gostava dele embebedou-de com o ambiente m\u00e1gico do liceu e pedalou em fofas nuvems durante dias. Quando o efeito terminou e algu\u00e9m (ou Deus, ou ele pr\u00f3prio) lhe retirou as nuvems debaixo dos p\u00e9s, numa noite em que a sua amada pela primeira vez chorou,n\u00e3o se sabe bem porqu\u00ea, por nada, a desorienta\u00e7\u00e3o, primeiro, e a culpa , depois , fizeram-no continuar com a rapariga tanto tempo que come\u00e7\u00f5u a gostar dela, mas j\u00e1 era tarde. Sim, demasiado tarde. J\u00e1 tinha feito tanta merda ( o que at\u00e9 \u00e9 normal naquela tenra idade e sobretudo numa cabe\u00e7a oca sempre \u00e1 procura de cumes nevados como a do nosso her\u00f3i), que era dif\u00edcil evitar a cruel trai\u00e7\u00e3o de Mirita, a Negra. Surpreendentemente, doeu muito, e de repente desapareceu-lhe familia e amigos que rotineiramente se reuniam em sua casa. Todos desapareceram, at\u00e9 o seu c\u00e3o, e , na sua dolorosa solid\u00e3o, chorou como quando em crian\u00e7a , com o seu encardido urso de peluche.Cascatas de l\u00e1grimas , rios de desespero, mares de solid\u00e3o. Virou ent\u00e3o para etapas de paix\u00e3o seguidas de desilus\u00e3o, seguidas de alguma estabilidade (passou pelo associativismo e foi membro dos \u201cAmigos de Onan\u201d, editores do jornal \u201cA m\u00e3o amiga\u201d, at\u00e9 se afundar no atoleiro do dever mais uma vez, do dever ser alguma coisa de decente, e casou-se com Popeia, a bela, filha de um merceeiro coxo,\u00a0 para passar anos ao fim dos quais daria uma velinha \u00e1 virgem para se desembara\u00e7ar da sua esposa, o que veio finalmente a acontecer gra\u00e7as a um milagre. Foram momentos de liberdade e alegria, mas Matinho era muito t\u00edmido e n\u00e3o conseguia declarar-se a uma paix\u00e3o, assim como n\u00e3o conseguia dizer n\u00e3o a uma n\u00e3o-paix\u00e3o na qual\u00a0 tivesse algum conforto.\u00a0 Conforto maternal, equilibrio afectivo na base de pantufas e comida muito condimentada, o que lhe provocou bcr\u00f3nicas hemerr\u00f3idas, E continuou pela vida for a a embrulhar-se em situa\u00e7\u00f5es das quais n\u00e3o conseguia sair nem perceber exactamente o que queria.<\/p>\n<p>No botequim de caf\u00e9, licores e baga\u00e7os do gordo Ginja bebia algums copos em silencio e ser\u00f4dea contempla\u00e7\u00e3o. As moscas voltijavam em piruetas manetas e ziguezagueavam at\u00e9 se atolarem em pegajosas tartes de cr\u00e8me. M\u00e1tinho olhava-as com simp\u00e1tica cumplicidade e esvaziava o seu livro de confidencias aos multioculares insectos, que em v\u00e3o se tentavam libertar. Isto \u00e9 a hist\u00f3ria da minha vida, pensava M\u00e1tinho.<\/p>\n<p>Sentiu-se apesar de tudo feliz, pelo que tinha vivido e pelo que pressentia que podia ter vivido. Tinha um cora\u00e7\u00e3o, de corti\u00e7a, talvez, mas um cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Um zumbido constante e agudo devolveu Luis Matinho Mendon\u00e7a ao mundo normal.<\/p>\n<p>Estava na ag\u00eancia de sonhos Sonholindo, um buraco deprimente pertencente a um compadre l\u00e1 da Terra, que fazia neg\u00f3cio na metr\u00f3pole com m\u00e1quinas de sonhos novas e mandava as velhas para as col\u00f3nias.<\/p>\n<p>A comiss\u00e1ria de bordo prop\u00f4s-lhe uma dose de coca-caf\u00e9ina, que ele absorveu, completamente estremunhado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014S\u00e3o quarenta cr\u00e9ditos, agente Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela tinha uma voz de uma flauta de bisel tocada por uma crian\u00e7a de tr\u00eas anos. M\u00e1tinho Mendon\u00e7a passou o cart\u00e3o\u00a0 maquinalmente, meio envergonhado. Entramelou a voz, tinha a saliva pegajosa como cola de contacto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00ad\u2014Voc\u00eas n\u00e3o guardam\u00a0 a grava\u00e7\u00e3o? Eu quero uma c\u00f3pia, mas destroiem essa merda. N\u00e3o h\u00e1 mais\u00a0 nada para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 absolutamente confidencial. S\u00f3 os guardamos se o desejar. H\u00e1 muita gente que os utiliza at\u00e9 como instrumento de trabalho, para o modelador mental, \u00e9 muito bom para o modelador, ele analisa <em>estes dados que est\u00e3o aqui<\/em> e tra\u00e7a \u2013lhe um perfil psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Destruam, Quero uma c\u00f3pia. Pronto . Eu n\u00e3o estive aqui. Quanto tempo\u00a0 \u00e9 que isto demorou?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Tr\u00eas horas, sete minutos e onze segundos, Inspector.<\/li>\n<li>Toma l\u00e1 um cr\u00e9dito legal para ti e n\u00e3o dizes nada e destrois essa porcaria, h\u00e3?.<\/li>\n<li>Obrigado<\/li>\n<li>Obrigado o caralho. Se eu sei que isto salta daqui vais parar ao congelador. Adeuzinho. N\u00e3o dizes nada.<\/li>\n<li>Obrigado<\/li>\n<li>Obrigado o caralho. Se eu sei que isto salta daqui vais parar ao congelador. Adeuzinho.N\u00e3o dizes nada.<\/li>\n<li>Obrigado<\/li>\n<li>Obrigado o caralho. Se eu sei que isto salta daqui vais parar ao congelador. Adeuzinho.N\u00e3o dizes nada.<\/li>\n<li>Obrigado<\/li>\n<li>Obrigado o caralho. Se eu sei que isto salta daqui vais parar ao congelador. Adeuzinho<\/li>\n<\/ul>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014Odeio estas repeti\u00e7\u00f5es<\/em>, pensou Matinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Saiu apressadamente da agencia de sonhos sentimentais\u00a0 para respirar o ar rarefeito da\u00a0 pequena cidade colonial. Apesar de tudo, aquela injec\u00e7\u00e3o de sentimentos fazia-lhe bem. Curiosamente, tornava-o mais duro, mais resistente.<\/p>\n<p>A madrugada Arcadiana misturava os violetas e laranjas em enxames de moscardos cripticos num zumbido doce, embalando os preg\u00f5es das v\u00e9nus locais. \u00c1s trinta da manh\u00e3 j\u00e1 estava um calor de derreter chumbo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014<em>Ral\u00e9 imunda e aterradora<\/em>, pensou, <em>mas talvez mais pr\u00f3xima dos produtos desta ag\u00eancia infecta. Cara\u00e7as!<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Frasco subiu a escadaria com o seu andar r\u00e1pido, desarticulado e coxo, tirando o\u00a0 velho chap\u00e9u de kilton\u00a0 perante o mestre. Mendon\u00e7a sentiu uma vaga e mesquinha irrita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Caspite! Ainda andas com esse chap\u00e9u seboso&#8230; Mas tu n\u00e3o reciclas nada? Safa!<\/li>\n<li>S\u00f3 tem dois dias, divino Mendon\u00e7a&#8230;<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u2014Dois dias? Essa porcaria mete nojo, tem quase duas semanas. Vais parar ao instituto higienista em menos de um peido.<\/p>\n<p>O Frasco era sempre a mesma merda.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 que tu queres da vida, Frasco? Est\u00e1s a criar uma popula\u00e7\u00e3o de germes? Queres ser o seu l\u00edder e dominar o universo?<\/p>\n<ul>\n<li>\u00c9&#8230;Pois&#8230;.Quer dizer, \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o se fazem deste modelo e eu afei\u00e7oei-me a ele. \u00c9 eficaz contra o H\u00e9lio e e esta porcaria desta atmosfera de maluquinhos, Doutor Mendon\u00e7a.<\/li>\n<li>Afei\u00e7oaste-te? Pensas que ningu\u00e9m nos est\u00e1 a ouvir,\u00f3 ratazana merdosa ?<\/li>\n<li>Se algu\u00e9m por acaso reparar que tems um chap\u00e9u decontinuado quem vai levar na ripa sou eu, desgra\u00e7ado! J\u00e1 fizeste o chefe turra falar? E as mulheres? Deixaste alguma pra mim?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Mendon\u00e7a n\u00e3o brincava em servi\u00e7o. Os seus gafanhotos projectavam-se impiedosos sobre a face esqu\u00e1lida do subordinado fiel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ontem estiv\u00e9mos at\u00e9 \u00e1s quatorze da manh\u00e3 a enfiar-lhes com soro 25 e alucinog\u00e9nios variados, al\u00e9m da dama de ferro, Das ratazanas rabo acima e de os p\u00f4r a ouvir Graciano Saga durante 24 horas, e o resultado \u00e9 que entraram mudos e sairam calados. \u00c9 uma ra\u00e7a de anormais. Treze mulheres j\u00e1 est\u00e3o no reino vegetal. Ah, aten\u00e7\u00e3o! tivemos rela\u00e7\u00f5es sexuais com elas mas ainda mais ou menos\u00a0 vivas, como \u00e9 das novas normas, mas pronto, aquilo s\u00f3 visto, s\u00e3o esquisitas mas esquisitas com\u00f3 caralho mesmo. S\u00f3 que quando tent\u00e1mos recicl\u00e1-las\u00a0 a porcaria do colector empanou, doutor. O triturador deve ter empancado. Temos que pedir \u00e1 Metr\u00f3pole um colector minimamente compativel com esta atmosfera de malucos. A culpa n\u00e3o foi nossa&#8230;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a observava pl\u00e1cidamente o seu subordinado. O seu semblante g\u00e9lido costumava paralizar os mais temiveis Gorgones canibais e Zurriatis comedores de homems, mas Frasco n\u00e3o se dava conta do estado de nervos do chefe e continuava a sua descri\u00e7\u00e3o dos factos no seu linguajar cicioso e popular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014\u00c9s um tipo do caralho, Frasco, um tipo do caralho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a enfiou-lhe um directo ao est\u00f4mago e uma cabe\u00e7ada na pr\u00f3tese nasal, mas desiquilibrou-se, arfou, sem ponta de oxig\u00e9nio nos pulm\u00f5es, tossiu convulsivamente e puxou da bombinha de atmosfera terrestre, que inalou sofregamente, at\u00e9 proferir as caridosas e paternais palavras:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Pronto.\u00a0 Aquilo que me fazes fazer&#8230; Desculpa l\u00e1, \u00e9 a merda da m\u00e1quina de sonhos. P\u00f5e-me esquisito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Frasco agarrou-se ao nariz e torceu um sorriso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o importa, chefe, a pr\u00f3tese j\u00e1 tinha quase uma semana&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Soltaram os dois uma gargalhada em c\u00e2mara lenta e desceram a\u00a0 imaculada escadaria de Plynom azul a voar, at\u00e9 aterrarem nos assentos do descapot\u00e1vel Gnomon novinho em folha, com cinquenta cilindros em Z e tr\u00eas milh\u00f5es de cavalos que Mendon\u00e7a tinha encomendado na tarde passada\u00a0 no Planeta Sogoma. Partiram \u00e1 velocidade da luz em direc\u00e7\u00e3o ao quartel general provincial.<\/p>\n<p>\u00c1 chegada, um silencio pesado envolvia a estrutura maci\u00e7a, inteiramente confeccionada em gosma de konvaja tranlucida. Nem um pio ecoava na densa floresta circundante. No alto de uma \u00e1rvore, um cleacchepantropo de crina transparente, abrindo as narinas, mostrava o sexo azul num tom de desafio aos dois terrestres, emitindo um son que ficava entre a gargalhada da hiena e os sons de exita\u00e7\u00e3o impaciente do chipanz\u00e9. \u00c1 entrada do complexo depararam-se com o pessoal num avan\u00e7ado estado de decomposi\u00e7\u00e3o, os menbros retorcidos como se n\u00e3o tivessem estrutura \u00f3ssea, os olhos abertos e sangrantes, numa express\u00e3o que parecia dizer: Porqu\u00ea? Qualquer coisa de terrivel tinha passado por ali.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Est\u00e3o equipados com o dispositivo de auto limpeza, bradou Frasco. Nem precisamos de os p\u00f4r no colector. Calha bem&#8230;<\/li>\n<\/ul>\n<p>Um caldu\u00e7o bem dado interrompeu as medita\u00e7\u00f5es do lugar-tenente. Era Mendon\u00e7a, sempre atento.<br \/>\n\u2014Vai-me buscar a merda do spray antimetab\u00f3lico, j\u00e1! Temos que saber que merda se passou aqui! Foda-se um gajo sai do trabalho um pintelho e volta e est\u00e1 tudo de pernas pr\u00f3 ar! Eu fodo estes tipos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Frasco aplicou o spray num dos agentes coloniais locais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Ao menos salvavas um portugu\u00eas \u00f3 anormal!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014desculpe, chefe&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O agente colonial falava com uma pronuncia cerrad\u00edssima no meio de v\u00f3mitos de gosma roxa. Algumas palavras faziam sentido, outras n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Os Turras&#8230; Clic&#8230;.A m\u00e3e do Universo&#8230;rrrrrr&#8230;a selva&#8230;A m\u00e3e! Rrrr..Tudo fodido&#8230;tudo fodido&#8230;<\/li>\n<\/ul>\n<p>Mendon\u00e7a abanava fortemente o pesco\u00e7o do selvagem<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014E n\u00f3s a trazermos a civilisa\u00e7\u00e3o a estes ingratos e estes filhos da puta nem sabem falar portugu\u00eas nem depois da merda do acordo ortop\u00e9dico. D\u00e1 vontade de os matar a todos&#8230;Matar&#8230;Morre!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a tinha tentado controlar-se, mas afloravam-lhe \u00e1 mente pensamentos em torno dos cr\u00e9ditos gastos na ag\u00eancia Lindosonho, a dif\u00edcil trai\u00e7\u00e3o de Mirita,\u00a0 em combina\u00e7\u00e3o com o descalabro ocorrido no quartel, a abomin\u00e1vel face do ign\u00f3bil ser alien\u00edgena e o seu pobre dom\u00ednio da lingua portuguesa&#8230;.<\/p>\n<p>Um pouco de estupidez natural fez o resto. Um espasmo sacudiu o corpo contorcido e feio do extra-terrestre. Luis Mendon\u00e7a, suando cascatas de suor nacional, Desabafou, tristemente:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014 \u00e1s vezes pergunto.me o que \u00e9 que um gajo est\u00e1 aqui a fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os sons selv\u00e1ticos da floresta pararam imperceptivelmente e os sete s\u00f3is iluminaram a clareira amarelada.<\/p>\n<p>Olhou para o cad\u00e1ver e uma sombra de sorriso iluminou.-lhe a face. Uma fresca\u00a0 e venturosa brisa parecia ter despontado, silenciosa e cheia de promessas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Isto \u00e9 que \u00e9 vida, Frasco! Matar Terroristas extra terrestres \u00e1 m\u00e3o, sem interm\u00e9dio de substancias qu\u00edmicas. Somos previlegiados. \u00c9 por isso que estou na col\u00f3nia. Nunca saberia ficar na metr\u00f3pole, a introduzir dados, atulhado em computadores, os prisioneiros naquele monstro da m\u00e1quina da verdade, tudo autom\u00e1tico&#8230;Aquilo faz tudo s\u00f3zinho&#8230; E onde \u00e9 que est\u00e1 o gozo? Onde \u00e9 que est\u00e1 o sangue? Onde est\u00e1 aquilo que fez de n\u00f3s os pioneiros da aventura ultra-estrelar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os pensamentos de Luis Mendon\u00e7a desataram a dan\u00e7ar no ar t\u00e9pido da floresta virgem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014\u00c8 certo que do sistema solar de Orion s\u00f3 fic\u00e1mos com menos de dez por cento do que decobr\u00edmos. Os marcianos e os amaricanos acabaram por extorquir o que era nosso por direito, atrav\u00e9s de trai\u00e7\u00f5es e maquina\u00e7\u00f5es variadas. Isso aconteceu tamb\u00e9m na nossa pr\u00e9-hist\u00f3ria, Frasco, com as col\u00f3nias que tinhamos na Terra. Eu leio, Frasco, eu leio. Tenho lido muita coisa. Anda. Vou mostrar.te uma preciosidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por vezes Mendon\u00e7a lamentava verdadeiramente n\u00e3o ter ningu\u00e9m com quem falar sobre a hist\u00f3ria de Portugal e o seu devir messi\u00e2nico, mas por outro lado n\u00e3o conseguiria tolerar subordinados mais do que semi-inteligentes. A esperteza nas classes inferiores cheirava-lhe sempre a comunismo. Se ali estivesse o doutor Maia, o seu mentor&#8230;Mas Maia era Director geral e passava o tempo nas burocracias metropolitanas.<\/p>\n<p>Para Frasco, o mon\u00f3logo do chefe tinha entrado por um ouvido e saido pelo outro, no entanto, e por precau\u00e7\u00e3o, acenou t\u00edmidamente que sim e balbuciou um reverente \u201cSim senhor\u201d.<\/p>\n<p>Entraram no escrit\u00f3rio castanho-doirado de Luis M\u00e1tinho Mendon\u00e7a, todo em madeiras preciosas locais. De uma gaveta tirou tr\u00eas objectos. Eram livros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Qu\u00e9 isso, chefe?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00ad\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014Isto, Frasco, s\u00e3o livros, feitos em papel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00ad\u2014Papel?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Papel, frasco, papel. Vale uma nota pr\u00eata. Diz aqui: \u201cPortugal e a sua voca\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica\u201d. E neste: \u201cPortugal,a P\u00e1tria e a Ra\u00e7a\u201d ou neste: \u201cTarzan Taborda, um dos maiores dez portugueses de todo o sempre\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Ah, isso tem letras&#8230;<br \/>\n\u2014Sim, tem letras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a estava agora melanc\u00f3lico. Era a ra\u00e7a de homems\u00a0 como Frasco que tinha tripulado as naves guerreiras que tinham descoberto e controlado o monop\u00f3lio de\u00a0 Tur\u00e2neo no sistema de Orion e era a ra\u00e7a de homems como ele, Luis Mendon\u00e7a, que tinha organizado e inventado todo esse sistema. O que restava de tudo isso? Restava passar \u00e1 ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Comunica com a distrital e pede refor\u00e7os, se possivel com efectivos de primeira. N\u00e3o quero arcadianos. Est\u00e3o todos feitos com os terroristas. Equipa o tanque rabijador. Vamos atr\u00e1s desses turras e vamos faz\u00ea-los pagar. Quem est\u00e1 atr\u00e1s disto \u00e9 a tal M\u00e3e. Vamos v\u00ear quantas s\u00e3o e &#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Acho que M\u00e3e, s\u00f3 h\u00e1 uma, chefe&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>O que \u00e9 que tu sabes dessa merda?<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Era o que diziam os terroristas, que h\u00e1 uma grande M\u00e3e e que domina toda a zona da floresta pantanosa e inpenetr\u00e1vel do baixo-Kiongo, onde se desenvolveu uma civilisa\u00e7\u00e3o, com pr\u00e9dios de apartamentos, casinos e tudo&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Isso \u00e9 o que se chama um mito ind\u00edgena, cabe\u00e7a de merda. Vamos l\u00e1 com uma miss\u00e3o: Eliminar e destruir! Despacha-te!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Caminhou at\u00e9 ao observat\u00f3rio, que ficava sobre ums rochedos escarpados na orla da clareira do quartel, com o fim de cumprir o seu intervalo de medita\u00e7\u00e3o. Queria falar com o seu mestre, o doutor Maia. Este tipo de comunica\u00e7\u00e3o necessitava da mais absoluta concentra\u00e7\u00e3o e\u00a0 envolvia a coloca\u00e7\u00e3o de uma pedra de r\u00e1dio sobre um dispositivo na cabe\u00e7a, a posi\u00e7\u00e3o de c\u00f3coras, de preferencia sobre equipamento sanit\u00e1rio e uma m\u00e3o em cada polo de uma pilha de Cyberg. Mendon\u00e7a seguiu os procedimentos e concentrou-se o mais que podia, mas n\u00e3o conseguia estabelecer comunica\u00e7\u00e3o, a humidade impedia a passagem da corrente hipovoltaica, at\u00e9 que pequenos estremecimentos indicaram o princ\u00edpio do processo. Mendon\u00e7a estremecia agora em convuls\u00f5es ritmadas at\u00e9 uma enorme e translucida elipse de luz se plantar \u00e1 sua frente e surgir, pouco a pouco, uma figura de porte aristocr\u00e1tico. Era Maia. Vestia uma capota alentejana branca, de corte impec\u00e1vel e absolutamente imaculada, que exalava uma luz difusa e bruxuleante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Quem manda?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00ad\u2014Portugal, Portugal,Portugal!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Quem vive?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Alcazar, Alcazar, Alcazar!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Que a for\u00e7a esteja contigo, meu irm\u00e3o. Se aqui estou \u00e9 porque a P\u00e1tria corre perigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O olhar do grande portugu\u00eas percorreu filos\u00f3ficamente a sala prescutando finamente cada canto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014 Este ambiente \u00e9-me&#8230;Curiosamente, familiar. Assisti \u00e1 constru\u00e7\u00e3o deste quartel, h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos atr\u00e1s&#8230; Grandes tempos! A constru\u00e7\u00e3o de um Imp\u00e9rio a partir do quase nada. A malta em tronco n\u00fa, meia d\u00fazia de mulheres canibais sob a for\u00e7a do chicote, mordendo os rudes troncos de madeira do a\u00e7aime, o triunfo da raz\u00e3o sobre a mat\u00e9ria bruta. Morria uma, substituia-se por outra, at\u00e9 \u00e1 total extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. Total? Parece que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a embebia-se do g\u00e9nio do seu mestre, num muito longo ansejo de cultura. O seu tom de voz modificava-se quando falava com Maia e algumas palavras surgiam com um tom agudo extremamente imnapropriado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Desapareceram <em>desta<\/em> regi\u00e3o pouco depois desse tempo, mas parece que ressurgiram por tr\u00e1s dos v\u00e1rios acontecimentos<em> bizarros<\/em> ocorridos em v\u00e1rios quart\u00e9is desta col\u00f3nia. Segundo o meu <em>ajudante<\/em> Frasco, existe uma tal <em>Grande M\u00e3e<\/em> que estar\u00e1 implicada nestas desordems. Existem ali\u00e1s j\u00e1 algumas vilas que n\u00e3o respondem aos meus repetidos apelos via r\u00e1dio e \u00e9 possivel que se esteja a dar uma <em>subleva\u00e7\u00e3o<\/em>, que se alastre a outras tribos arcadianas. Receio mesmo j\u00e1 n\u00e3o poder confiar nos ajudantes abor\u00edgenes a trai\u00e7\u00e3o est\u00e1 por todo o lado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Tems raz\u00e3o, Luis. Alguem anda a tentar acabar com este nosso sonho de um grande Portugal e a sublevar estas prov\u00edncias. Veremos que pot\u00eancias estrangeiras est\u00e3o por tr\u00e1s disto. A Espanha, sem d\u00favida, a Inglaterra, mas tamb\u00e9m Marte, Neptuno a Uni\u00e3o das R\u00e9publicas Socialistas de Saturno e o resto do Mundo.<\/li>\n<li>Por vezes parece-me que esta tarefa \u00e9 demasiado grande para mim. Sinceramente, Dr. Maia, h\u00e1 horas em que desespero. Como poderemos, sendo t\u00e3o poucos&#8230;<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00adDe repente sente-se um ruido de trov\u00e3o em sensurround e aparece um objecto vertical flutuando no espa\u00e7o, do qual saiem raios aterradores. Tem a forma de uma moca de Rio Maior em tit\u00e2neo maci\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00ad\u2014O cacete de Kaulza!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 Verdade. O m\u00e1gico e m\u00edtico objecto, s\u00f3 transmissivel a um gr\u00e3o mestre da Policia da P\u00e1tria (P.P.) \u00e9 te oferecido pelo esp\u00edrito dos nossos antepassados. Espero que estejas \u00e1 altura dos teus novos poderes. Que a for\u00e7a\u00a0 na verga esteja contigo!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Juro pelo que \u00e9 mais sagrado defender a Na\u00e7\u00e3o dos estrangeiros, dos terroristas e dos abichanados at\u00e9 \u00e1 \u00faltima gota do meu sangue!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma explos\u00e3o de luz ribomba pelas traves mestras do edif\u00edcio, fazendo Luis Mendon\u00e7a perder a consci\u00eancia. Num turbilh\u00e3o, rev\u00ea a face de Mirita e de todas as outras mulheres que n\u00e3o teve na vida a n\u00e3o ser na m\u00e1quina de sonhos.<\/p>\n<p>Uma luz branca numa sala branca cheia de equipamento electrost\u00e1sico branco fazem-no estremecer debaixo dos len\u00e7ois brancos. A m\u00e3o de uma enfermeira p\u00e1lida vestida de branco pousa na sua testa exangue. Autom\u00e1ticamente, leva a m\u00e3o \u00e1 vagina calva da enfermeira e mergulha algums dedos no mel viscoso do seu interior, ouvindo confusamente uma resposta, ao longe como se num corredor a centenas de metros\u2014 \u201cai, senhor doutor, hoje estamos muito viva\u00e7os\u201d<\/p>\n<p><em>E a vagina encosta-se agora \u00e1 sua boca e lambe e bebe o mel cor de p\u00e9rola e enfia-lhe dois dedos grossos com o anel de bras\u00e3o pelo recto acima.ela urina copiosamente na sua cara e ele gargareja com prazer infantil. Agora ela sorve-lhe o p\u00e9nis proteico com vigor profissional e enfia-o dentro da sua terceira vagina, na testa. Ent\u00e3o a sua vagina proboscidia come\u00e7a a sug\u00e1-lo at\u00e9 que o corpo de Luis Mendon\u00e7aest\u00e1 j\u00e1 metade enterrado dentro do\u00a0 ventre da mulher, que quase o engole completamente no momento em que Frasco aparece. Desesperadamente, atira sobre a abomin\u00e1vel ind\u00edgena mas os titos s\u00e3o absorvidos pela sua pele.<\/em> Depois de sonhar com a historia de Jonas e da baleia, Mendon\u00e7a toma finalmente consciencia do que se est\u00e1 a passar. Que fazer?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014A moca, Frasco! Onde est\u00e1 a moca?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um objecto prateado ilumina-se e move-se at\u00e9 \u00e1 unica m\u00e3o livre de Mendon\u00e7a. \u00c9 a moca. Acto cont\u00ednuo, prega umas rudes bordoadas na falsa enfermeira e consegue libertar-se. A mulher canibal (pois de tal ser extraordin\u00e1rio se trata) rebenta com a falsa pele de enfermeira e revela-se em todo o seu esplendor: Dois metros de carne sedenta de sexo, com os seus pelos p\u00fabicos que v\u00e3o da \u00e1rea mam\u00e1ria\u00a0 at\u00e9 \u00e1 altura dos joelhos, vaginas multiplas rodopiantes e, \u00e9 justo diz\u00ea-lo, um certo charme bo\u00e7al, de dar tes\u00e3o aos habitantes da capela dos ossos em \u00c9vora (Portugal). A bicha solta um urro aterrador e num \u00e1pice desaparece pela janela. Frasco nem teve tempo de compreender a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Chissa! \u00c9 de meter os cabelos em p\u00e9, chefe!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Luis mendon\u00e7a tira da sua mariconete um cigarro de tabaco turaniano extra longo, acende-o com o isqueiro Ducon em pl\u00e1stico maci\u00e7o e aspira uma baforada com semblante pensativo. Num momento de volupia solta o fumo em forma de O no ar nauseabundo da enfermaria e solta um ah!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Ah!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Oh, era uma bela mo\u00e7a, chefe, a verdade \u00e9 que terrorista ou n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Hum&#8230;H\u00e1 mais donde esta vem. Isto pode dar neg\u00f3cio. J\u00e1 pensaste, Frasco, no que se poderia ganhar\u00a0 com um bordel onde actuassem estas selvagemzitas? Estas anormais s\u00e3o um balurdio em qualquer casa do g\u00e9nero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Toda a gente l\u00e1 ia parar, chefe. Mas elas s\u00e3o perigosas..<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Mas eu, Luis M\u00e1tinho Mendon\u00e7a posso program\u00e1-las para darem o litro sem paparem o fregu\u00eas. Compreendi que o meu charme n\u00e3o \u00e9 indiferente a estas comilonas implac\u00e1veis. Sabes o que \u00e9 olh\u00e1-las nos olhos e perceberes que tems poder e uma tarefa onde o podes usar da melhor maneira, tanto para servir Alcazar como o proveito pr\u00f3prio?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Mas, chefe&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Temos que dar instru\u00e7\u00f5es precisas aos refor\u00e7os para n\u00e3o as matarem nem as danificar. Podemos montar a maior casa de putas da gal\u00e1xia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os olhos do inspector Luis Mendon\u00e7a esbugalharam-se sob as lentes grossas de m\u00edope e um pouco de baba branca escorreu do canto do seu l\u00e1bio inferior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Serei rico&#8230;infinitamente rico&#8230;E talvez encontre finalmente a minha \u00e1lma g\u00e9mea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Eh&#8230;Mas isso seria usar meios do estado para proveito do chefe&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Frasco, n\u00e3o te vou dar um bofardo nas ventas porque me sinto estranhamente feliz. A iniciativa privada, neste caso, e como quase sempre, une-se ao servi\u00e7o \u00e1 P\u00e1tria com resultados sensacionais para os dois. E ,\u00e9 claro ser\u00e1s s\u00f3cio minorit\u00e1rio, com a responsabilidade acrescida de ter sempre o equipamento sanit\u00e1rio a brilhar&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No horizonte apareceram as velhas naves de guerra \u201cCondest\u00e1vel\u201d. Os refor\u00e7os da metr\u00f3pole tinham finalmente chegado e, como de costume tinham ligado a altos berros a marcha n\u00ba 3 de John Philip de Sousa. No percurso destruiam algumas barracas ind\u00edgenas para impor respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014O respeitinho \u00e9 uma coisa muito bonita, Sentenciou Frasco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da nave capit\u00e3 deseu um homem coma cara coberta de cicatrizes, com o cabelo compriso e um len\u00e7o atravessado ma testa. Era o major Nando, um dos maiores portugueses j\u00e1 vistos neste canto esquecido do universo. Homem de pouca conversa e de muita pancada. Era afilhado do inspector, filho de uma virgem morta em condi\u00e7\u00f5es misteriosas numa cria\u00e7\u00e3o de porcos em Santa Marta de Penagui\u00e3o e tinha sido pr\u00e1cticamente adoptado pela caseira da fam\u00edlia. Quando falava parecia t\u00ear dois tamp\u00f5es na boca, junto aos molares, tal a sua pronuncia era far\u00e7ola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Gande Luix Mendon\u00e7a!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00ad\u2014Meu pequeno, como est\u00e1s? Ouvi dizer que fizeste grandes coisas em Melmak!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014S\u00f3 cumpi o meu dever, inxpector. Limpei o x \u00e1quela diarreia comunista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Sim senhor, sim senhor. Agora a diarreia \u00e9 outra, e \u00e9 preciso ir a pizar ovos. Existe nas profundezas abissais das pantanosas florestas de Koina, no desfiladeiro de Moyta, uma tribo de mulheres um pouco&#8230;canibais. Mas n\u00e3o s\u00e3o pr\u00b4priamente comunistas. S\u00e3o selvagems e devem ser pacificadas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014O pad\u2019inho xabe que tanto me fax ape\u2019tar a ga\u2019ganta a um turra como esvent\u2019ar uma tipa&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Eu sei, \u00f3 Fanan, mas neste caso vamos devagarinho. A vida destes seres pode ser de interesse vital para a P\u00e1tria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Tudo bem, pad\u2019inho. O pad\u2019inho \u00e9 que xabe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O inspector empoleira-se no leme de uma nave e discursa \u00e1s tropas no seu estilo messianico e arrebatador<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014Rapaziada! Esta \u00e9 uma miss\u00e3o dif\u00edcil. Esta \u00e9 uma miss\u00e3o que enobrece a ra\u00e7a e dar\u00e1 fama a esta companhia. Seremos bravos, corajosos, mas tamb\u00e9m amigos destas pobres selvagems que tanto necessitam de alguem que as guie para Cristo nosso Senhor e para os valores da nossa civilisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a Koina, e em for\u00e7a!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fim do primeiro epis\u00f3dio<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o perque o epis\u00f3dio seguinte, \u201cOs emiss\u00e1rios de Tokalon\u201d.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O moscardo Portugu\u00eas \u00a0 Introdu\u00e7\u00e3o pr\u00e9-gen\u00e9rica &nbsp; &nbsp; Triceratops girava a toda a velocidade no seu foguete \u201cVigoroso\u201d . Apesar de ser um moscardo oct\u00f3pode de mais de cem Kilos continuava a t\u00ear orgulho em ser portugu\u00eas. 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