{"id":1986,"date":"2015-04-22T13:30:10","date_gmt":"2015-04-22T13:30:10","guid":{"rendered":"http:\/\/mjvieira.com\/site\/?p=1986"},"modified":"2015-04-22T13:41:06","modified_gmt":"2015-04-22T13:41:06","slug":"cagalhao-de-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mjvieira.com\/site\/cagalhao-de-ouro\/","title":{"rendered":"O Cagalh\u00e3o de ouro"},"content":{"rendered":"<p>Na Lisboa de ent\u00e3o, a profiss\u00e3o de mestre pintor era tida em alguma considera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sendo uma posi\u00e7\u00e3o nobre, era por vezes a alguns mestres dada a oportunidade de participarem em banquetes com o pr\u00f3prio rei, no caso dos seus trabalhos ca\u00edrem nas boas gra\u00e7as de sua m\u00e3e. A ra\u00ednha Isalzisa, filha de um comerciante de salsichas de Lamego, tinha um fraco pela pintura de cavalete e era ela pr\u00f3pria uma p\u00e9ssima aguarelista. Obviamente que ningu\u00e9m criticava os dotes pict\u00f3ricos da nobre senhora, pois quando ficava contrariada, oferecia \u00e0s pessoas a oportunidade de uma visita \u00e0s masmorras, onde se alinhavam de uma forma limpa e arrumada as \u00faltimas inven\u00e7\u00f5es no dom\u00ednio das m\u00e1quinas de tortura, que a Santa Inquisi\u00e7\u00e3o vinha inovando ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n<p>O jovem adolescente Jo\u00e3o das Lampas era assistente do mestre pintor Domingo Domingues, veterano de tr\u00edpticos pol\u00edpticos e policrom\u00e1ticos pain\u00e9is onde figurava a vida dos Santos, assim como cenas b\u00edblicas do Antigo Testamento, onde por vezes se misturavam algumas imagens pag\u00e3s \u2013 pelo menos era o que dizia o Cardeal Segisfredo, sempre no af\u00e3 de encontrar uma v\u00edtima com a qual pudesse comprovar a qualidade das infernais maquinarias da Inquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pais de Jo\u00e3o viviam no meio de uma floresta, na regi\u00e3o do Buceiral das Lampas (donde o nome Jo\u00e3o das Lampas). Uma regi\u00e3o florestal, constitu\u00edda por um louda\u00e7al cravejado de arvores tristes e sem folhas. Tinham vendido o pequeno Jo\u00e3o ao mestre Domingo Domingues tinha ele tr\u00eas anos por tr\u00eas patacas de bronze, que prontamente gastaram em vinho de m\u00e1 qualidade. No entanto, o jovem Jo\u00e3o singrou na oficina do mestre, aprendendo de tudo, desde misturar os pigmentos e dos \u00f3leos at\u00e9 \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o das telas, \u00e0 arte de dourar madeiras, esculpir altares, at\u00e9 se tornar indispens\u00e1vel na oficina e o mais certo herdeiro desta.<\/p>\n<p>Todos os meses, Jo\u00e3o enviava para as Lampas dois dobr\u00f5es de ouro, coisa que fazia com que os seus pais vivessem agora bem, estivessem quase sempre alcoolizados, sendo que o pai frequentava as poss\u00edveis prostitutas nos rec\u00f4ndidos ermos e lugarejos da regi\u00e3o, e a m\u00e3e frequentava bruxos e bruxas, endo arranjado tamb\u00e9m uma criada de servir, na qual batia constantemente com uma vara de marmelo.<\/p>\n<p>Certo dia, os pais visitaram Jo\u00e3o em Lisboa, foram \u00e0 sua casa e bateram \u00e0 porta: \u201cToc toc toc\u201d. \u201cQuem \u00e9?\u201d, disse Jo\u00e3o. \u201cSomos os teus queridos pais, que n\u00e3o te vemos \u00e0 tanto tempo, e tanto gostamos de ti\u201d. O Jo\u00e3o, admirado, abriu a porta, e apesar de os ver muito mais gordos e com muito menos dentes, conseguiu (porque era bom fisionomista), reconhecer neles algumas afinidades formais com os seus pais, dos quais se tinha despedido com 3 anos de idade.<\/p>\n<p>Mal entraram na sua casa, os pais come\u00e7aram a comer tudo o que havia para comer, a experimentar todas as roupas de Jo\u00e3o, pois que ele tinha pelicas de raposa \u00e1rtica, e outro tipo de vestimentas muito \u00e0 moda da \u00e9poca, e que raramente se viam em S\u00e3o Jo\u00e3o das Lampas.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, muito contente de ter outra vez os seus queridos pais, mandou assar uma vitela inteira e mandou vir m\u00fasicos e dan\u00e7arinos para os agradar. O pai n\u00e3o perdia a ocasi\u00e3o para beliscar as bailarinas e a m\u00e3e nao perdia a ocasi\u00e3o para vomitar sobre os ricos tapetes persas que ornamentavam o soalho.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o arranjou-lhe um quarto para passarem a noite, com uma cama de dossel, em frente da qual um altar todo em talha d\u2019ouro abrigava uma imagem da Nossa Senhora pol\u00edcroma, ostentando um vestido pintado de l\u00e1piz-lazuli, cujos olhos eram feitos de pedras e esmeraldas. O pai disse prontamente \u00e0 sua esposa: \u201cDev\u00edamos levar isto para casa. Era o m\u00ednimo! Afinal, sem n\u00f3s, ele nem sequer existiria.\u201d. E a m\u00e3e dizia: \u201cDepois de tudo aquilo que fiz\u00e9mos por ele, e vivendo como ele vive, \u00e9 um insulto n\u00e3o nos p\u00f4r casa em Lisboa\u201d. \u201cSim, o malandro! Despreza os pr\u00f3prios pais e as suas origens modestas, preferindo o v\u00e3o luxo da cidade e as m\u00e1s companhias&#8230;\u201d. A mulher interrompeu-o: \u201cOlha que nisso das m\u00e1s companhias tem a quem sair; n\u00e3o te podes considerar como um modelo de virtude, putanheiro de merda!\u201d. \u201cEu, putanheiro? E tu, minha vaca? O que andas a fazer com essas bruxas das tuas amigas? A dan\u00e7ar o Sabath com cabras e bodes, a voar pelos ares em vassouras&#8230; Se a Santa Inquisi\u00e7\u00e3o soubesse metade do que eu sei, estarias neste momento a apascentar as chamas das fogueiras\u201d. \u201cBom, tab\u00e9m, mas leva l\u00e1 a Santa no saco, e voltamos para S\u00e3o Jo\u00e3o das Lampas\u201d. No outro dia de manh\u00e3, o pai quis ir ao quarto de banho, e a m\u00e3e tamb\u00e9m, mas verificaram que ela estava ocupada, e ouviam um barulhos pr\u00f3prios, que uma pessoa faz quando est\u00e1 a obrar. \u201cOh Jo\u00e3o?\u201d \u2013 disse a m\u00e3e, \u201cEst\u00e1s a obrar?\u201d. \u201cSim, m\u00e3e!\u201d, disse o Jo\u00e3o \u201c\u00e9 s\u00f3 um bocadinho!\u201d. \u201cAh, est\u00e1 bem. Ficamos aqui \u00e0 espera\u201d. Mal o Jo\u00e3o saiu, os pais entraram. Ficaram muito surpreendidos e deliciados com a claridade, a vastid\u00e3o e a limpeza da casa de banho. Olharam para um grande penico, cujas bordas eram cobertas de almofadas de couro, e a m\u00e3e disse: \u201cSim senhor! O meu filho \u00e9 um verdadeiro pr\u00edncipe. \u00c9 engra\u00e7ado que n\u00e3o cheira a nada!\u201d. Aproximou-se do principesco penico e soltou uma exclama\u00e7\u00e3o de espanto ao ver o objecto que nele estava depositado:<\/p>\n<p>\u201cOh An\u00edbal, \u00e9 um cagalh\u00e3o de ouro\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e3?\u201d<\/p>\n<p>\u201cUm cagalh\u00e3o de ouro, An\u00edbal! Ah, e \u00e9 t\u00e3o grande&#8230; Achas que ele repara se n\u00f3s levarmos?\u201d<\/p>\n<p>\u201cClaro que n\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o ser\u00e1 isto um truque? N\u00e3o ser\u00e1 uma maneira de nos dizer que estamos a ser cobi\u00e7osos?\u201d<\/p>\n<p>\u201cVamos fazer o seguinte, mulher&#8230; Vamos ficar aqui a olhar o que \u00e9 que fazem com o penico. Ficamos aqui atr\u00e1s das cortinas do duche e vamos ver tudo o que se passa!\u201d<\/p>\n<p>Entrou uma servente com um ar perfeitamente natural, pegou no penico e atirou o cagalh\u00e3o pela janela. Os pais sa\u00edram de casa, foram at\u00e9 ao quintal, e qual n\u00e3o foi o seu espanto quando verificaram que todo o quintal estava coberto dos mais variados formatos de poias do precioso metal, abandonadas como se de estrume se tratasse. Os pais, imediatamente, mandaram vir uma carro\u00e7a puxada por quatro bois, e depois de meter os preciosos objectos em sacas, carregaram o carro e meteram-se a caminho das Lampas, sem sequer se despedirem do rapaz. Chegando a meio do caminho, no entanto, encontraram um velhinho em cima de uma ponte. O velhinho pedia esmola da seguinte forma: \u201cD\u00eam s\u00f3 um tost\u00e3ozinho, d\u00eam s\u00f3 um tost\u00e3ozinho a este pobre velhinho para que ele possa comer uma sopinha\u201d. O pai, irado, respondeu: \u201cChega-te para l\u00e1, n\u00e3o tens vergonha? Com a tua idade, e a pedir?\u201d e a m\u00e3e: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 moralidade, An\u00edbal. Estes pobres s\u00e3o o cancro do nosso pa\u00eds.\u201d Mas a carro\u00e7a estava t\u00e3o pesada, t\u00e3o pesada, que partiu uma roda. Quando outra carro\u00e7a apareceu atr\u00e1s, a ponte partiu-se, e os pai s\u00f3 se salvaram porque se conseguiram segurar a parte da arcada que n\u00e3o tinha cedido \u00e0 derrocada. Mal se conseguiram salvar, tomaram o caminho da parte de baixo da ponte, para ver se podiam salvar algum do seu precioso conte\u00fado, mas a torrente do rio, copiosa, tinha arrastado carro\u00e7a e tudo o que l\u00e1 estava dentro em direc\u00e7\u00e3o ao oceano, e nas margem tinha deixado apenas um cagalh\u00e3o de ouro, que era o cagalh\u00e3o que Jo\u00e3o tinha obrado naquela manh\u00e3. A m\u00e3e disse assim: \u201cIsto sempre d\u00e1 para viver desafogadamente durante uns anos, An\u00edbal\u201d. \u201cN\u00e3o sei, Cunegasta. Eu gostaria de construir um castelo com dez torres, mais alto do que o de Sortelha, com as ameias repletas de pedras preciosas, para mostrar a toda a gente que somos o casal mais rico do mundo, e as pessoas mais inteligentes que pisam o firmamento terreno.\u201d \u201cO que \u00e9 que havemos de fazer, An\u00edbal?\u201d \u201cTenho um plano! Vamos escrever ao Jo\u00e3o uma carta a dizer o quanto gostar\u00edamos que ele nos viesse visitar e que sabemos o quanto ele gostaria de rever o seu torr\u00e3o-natal.<\/p>\n<p>E voltaram a casa e pediram a um rapaz que sabia ler e escrever que escrevesse a carta para o filho.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o recebeu a carta na altura em que se preparava para acabar o ret\u00e1bulo mor da catedral de Lisboa e escreveu a dizer que naquela altura n\u00e3o podia porque era o trabalho mais importante que lhe tinham atribu\u00eddo e tinha uma obriga\u00e7\u00e3o para com o seu mestre. Apareceu-lhe ent\u00e3o um velhinho, O mesmo que os pais tinham encontrado na ponte, e que lhe pediu esmola:<\/p>\n<p>Meu bom senhor, pe\u00e7o-lhe s\u00f3 uma esmolinha para que um pobre velho que a morte j\u00e1 corteja\u00a0 possa comer uma sopinha&#8230;<\/p>\n<p>O bom Jo\u00e3o tirou da sua bolsa tudo o que tinha, dez dobr\u00f5es de ouro, que davam para comprar dez cavalos, e ofereceu-o ao velho.<\/p>\n<ul>\n<li>obrigado , meu bom senhor, bendito seja entre os homens e os anjos, boas festas e um novo ano muito pr\u00f3spero.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O resto da hist\u00f3ria j\u00e1 se sabe: Os pais estriparam Jo\u00e3o \u00c1 procura de ouro mas nada encontraram. \u00c9 assim que este pa\u00eds trata os artistas desde o Sec. XVI.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Lisboa de ent\u00e3o, a profiss\u00e3o de mestre pintor era tida em alguma considera\u00e7\u00e3o. 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