{"id":1989,"date":"2015-04-22T13:31:13","date_gmt":"2015-04-22T13:31:13","guid":{"rendered":"http:\/\/mjvieira.com\/site\/?p=1989"},"modified":"2015-04-22T13:41:02","modified_gmt":"2015-04-22T13:41:02","slug":"o-estranho-caso-das-projeccoes-mentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mjvieira.com\/site\/o-estranho-caso-das-projeccoes-mentais\/","title":{"rendered":"O ESTRANHO CASO DAS PROJEC\u00c7\u00d5ES MENTAIS"},"content":{"rendered":"<p>O ESTRANHO CASO DAS PROJEC\u00c7\u00d5ES MENTAIS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, pela d\u00e9bil ilumina\u00e7\u00e3o intermitente da luz amarelada\u00a0candeeiros p\u00fablicos, negoceiam-se broches e outras fodas, as prostitutas idosas, os marinheiros b\u00eabados.<\/p>\n<p>Um B\u00f3b\u00f3 20 euros! E \u00e9 sem engolir. A engolir \u00e9 trinta!<\/p>\n<p>Subindo a parede do pr\u00e9dio decr\u00e9pito, num pateo das cantigas moribundo, est\u00e1 a\u00a0 janela de Jos\u00e9 J\u00falio, os estores assim\u00e9tricos, quebrados, velhos. Entrando pela frincha da janela a\u00ed o temos, zebrado pela luz exterior, virando-se irrequieto num sono mau, suando na almofada amarelada de sujidades e secre\u00e7\u00f5es. O quarto pequen\u00edssimo mal d\u00e1 para a cama onde dorme vestido, os p\u00e9s de fora. Os ratos prosseguem as suas prociss\u00f5es na v\u00e3 busca de qualquer c\u00f4dea, qualquer migalha, com sorte uma barata.<\/p>\n<p>Os gatos miam de sio,\u00a0emitindo um som de\u00a0b\u00e9b\u00e9 abandonado h\u00e1 quatro dias, indiferentes ao tique taque rombo do despertador ferrugento.<\/p>\n<p>No seu sonho JJ est\u00e1 aprisionado numa tela de pintura a \u00f3leo. Tenta mover-se em v\u00e3o. O pintor, Orgasmo Carlos, d\u00e1-lhe os ultimos retoques, exibindo um sorriso sard\u00f3nico. A sua namorada, Fr\u00edgida, solta um pequeno riso benevolente.<\/p>\n<p>\u2014 Que figurinha \u00e9 esta? porque se mexe?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o percebo. deve ser da merda destes tubos de tinta baratos. eu j\u00e1 lhe digo! Vamos l\u00e1 ver agora se te mexes (saca de uma caixa de alfinetes e prega-os nos cotovelos e joelhos do homunculo, que emite um quase imperceptivel gemido- depois disso afasta-se)!<\/p>\n<p>\u2014 Bem, o que \u00e9 que h\u00e1 para comer?<\/p>\n<p>\u2014 Temos que ir comer fora. a perdiz queimou-se completamente.<\/p>\n<p>\u2014 E quando arranjas uma criada? Ora merda para ti puta do caralho! n\u00e3o \u00e9s capaz de fazer um caralho de merda, foda-se vou \u00e1 merda do restaurante e tu ficas aqui e se quiseres comes aquele carv\u00e3o, tou-me a cagar!<\/p>\n<p>A rapariga observa tristemente o homemzinho que se debate, p\u00f5e-lhe delicadamente o dedo na cabe\u00e7a. o dedo fica sujo de \u00f3leo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sofras mais, homemzinho. Eu tamb\u00e9m estou triste, como tu. Olha vou tirar-te os alfinetes.<\/p>\n<p>JJ olha para a cara enorme da rapariga, que parece navegar num mar de calma e beleza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ESTRANHO CASO DAS PROJEC\u00c7\u00d5ES MENTAIS &nbsp; L\u00e1 fora, pela d\u00e9bil ilumina\u00e7\u00e3o intermitente da luz amarelada\u00a0candeeiros p\u00fablicos, negoceiam-se broches e outras fodas, as prostitutas idosas, os marinheiros b\u00eabados. Um B\u00f3b\u00f3 20 euros! E \u00e9 sem engolir. A engolir \u00e9 trinta! 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